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sábado, 3 de setembro de 2016

"Francamente, Frank" (Porto Editora), de Richard Ford



Frank Bascombe está de volta


Criado na década de 80, o icónico personagem de Richard Ford (n.1944) regressa em «Francamente, Frank» (Porto Editora), obra finalista do Prémio Pulitzer 2015.
Frank Bascombe surge, pela primeira vez, em «O Jornalista Desportivo» (1986). Foi imaginado para aparecer num só romance. Richard Ford não tinha intenção de criar uma figura que, como Rabbit de John Updike, ligasse várias histórias. No entanto, a voz de Bascombe voltou quando Ford tirava apontamentos para «O Dia da Independência» (1995), anos depois de ter publicado «Wildlife» (1990). O autor nascido no Mississippi percebeu que este personagem tinha mais para contar. «O Dia da Independência» viria a ganhar o Prémio PEN/Faulkner Award e o Pulitzer Prize for Fiction.
«A Pele da Terra» (2006), pensado como terceiro e último romance deste ciclo, trouxe uma figura já cinquentenária, mas a suscitar o mesmo pathos. Ford continuou a delinear este indivíduo sarcástico e politicamente incorrecto. Era o fim do caminho, pensou o autor. «Canadá» (2012) marcaria, assim, o pós-Bascombe. Mas, mais uma vez, o escritor estava enganado.
Em passeio pela "Jersey Shore", pouco depois do Furacão Sandy, em 2012, Richard Ford observou a destruição daquela área. Quando pensava no que ali tinha visto, o criador percebeu que estava a pensar com a voz da sua criação. Bascombe estava de volta.
«Francamente, Frank» é composto por quatro partes (ou novelas): Em "Estou aqui”, o personagem visita, tal como o autor o fizera, a costa destruída de Jersey. Vendera uma casa a um amigo. Esta já não existia. Em "Tudo podia ser pior", ele recebe a visita de uma antiga moradora de sua casa, por quem fica a saber o horror que ali havia acontecido. "A nova norma" traz um enorme desafio. Frank tem de visitar a sua ex-mulher, que padece de Alzheimer. Em "Mortes de outros" um amigo, no leito de morte, dá informações perturbadoras sobre o passado de ambos.
De visita em visita, Frank vai pensando sobre as mudanças que aconteceram consigo e na sociedade americana.
Haddam, subúrbio de New Jersey, mudou muito desde a sua fundação. O outrora bairro suburbano para brancos é habitado por diversas etnias. A própria habitação de Frank, comprada após ter vendido a sua em "Jersey Shore", pertenceu ao primeiro casal multirracial de Haddam.
Richard Ford, em entrevista ao "El País", admitiu que ele próprio, em criança, era um racista em potência.
A segregação foi sendo diluída no tempo, embora ainda seja um assunto importante na sociedade americana.
Haddam sofreria, como toda a sociedade americana, mudanças sociais devido ao "boom" imobiliário e consequente recessão. O ex-agente imobiliário, agora reformado, discorre sobre as alterações que novos habitantes criaram com a respectiva chegada. As casas manifestam essas mudanças:
"O dinheiro vem, o dinheiro vai. Só as casas – grandiosas e silenciosas e valendo mais do que as dívidas- testemunham as vidas que vão passando"
Ponto a ponto, Bascombe vai analisando importantes alterações que o país sofreu. As mudanças políticas - os cartazes de Romney/Ryan rivalizam com os de "Vende-se" nessa localidade republicana-, a desconfiança imposta pelos atentados, e as catástrofes naturais vão sendo abordadas ao longo das visitas a/de Bascombe.  Na sua perspectiva, os EUA reerguem-se constantemente seja dos atentados ou das tempestades. A resiliência é uma característica dos americanos. Em “Jersey Shore”,"Um cartaz de papel diante de um dos bares – roubado no relvado de alguém depois das eleições- foi reconvertido e, em vez de anunciar «Obama-Biden», proclama agora: «Voltámos. Por isso, Vai-Te Foder,Sandy»."
«Francamente, Frank» poderia ser, nas mãos de um escritor menos hábil, um conjunto de episódios soltos. Mas não. Richard Ford tem a capacidade dos grandes escritores para dar coerência às quatro novelas e ainda desenvolver um personagem extraordinário. É difícil não querer acompanhar Frank Bascombe. Ou devemos dizer Ford?
A hipótese de Bascombe ser alter-ego de Ford já foi rebatida pelo próprio autor. No entanto, o muito acentuado aproveitamento das características pessoais (idade, físico) e de acontecimentos (o autor frequentou a clínica onde o personagem foi consultado) continuam a sublinhar essa possibilidade.
O nível de linguagem utilizado também não é o mais usual de se encontrar num agente imobiliário. Isso denota a presença do autor, o que pode implicar a projecção da voz de um no outro:
"Coroas floridas, numa ominosa agitação marítima, avivam a expectativa nos imprudentes".
No entanto, a menção às actividades de Bascombe, que lê Naipaul na rádio e escreve para a revista "We Salute You" (destinada a ex-combatentes), permite que incredulidade não se instale no leitor.
Ford, em entrevista a "The New Yorker", afirmou que Frank Bascombe é um instrumento e um veículo, feito de linguagem, preenchido por muitas coisas que ocupam a mente ao autor.
Seja uma projecção ou não, Bascombe tem no sarcasmo a sua "marca de água"
"Não é um rapaz bem-apessoado (todas as suas feições são demasiado grandes, demasiado rosadas, demasiado carnudas), um cruzamento de um agricultor do Minnesota com um dos seus animais. Tem sorte em ter mulher"
De romance para romance, o personagem envelhece uma década. Em «Francamente, Frank», esta carismática figura demonstra, com muita ironia, a preocupação com o "arrastar dos pés", "as quedas" e o hálito. O fulgor que mostrava em «O Jornalista Desportivo» não existe em «Francamente, Frank»:
"Há uns anos, caía no gelo, levantava-me e não pensava mais nisso. Agora, é uma sentença de morte".
Frank Bascombe passou, ao longo das três ou quatro décadas que o acompanhamos, por inúmeras vicissitudes, como o divórcio, atentados, recessão e a morte de um filho. Talvez por isso, o seu mantra é viver no presente, sem tentar prever o que se poderá passar nos anos vindouros.
Frank Bascombe e Richard Ford estão de volta. Ainda bem. O leitor fica na companhia de um grande personagem criado por um enorme escritor.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=840177
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