Latest News

Livros (total em labels ou índice): A-F

G-N

O-Z

Vídeos

Recent Posts

sábado, 30 de dezembro de 2017

Octaedro, de Julio Cortazar




Orientar o leitor até ao sentido, dispensando o esforço de quem recebe o texto, é algo rejeitado por escritores como Jorge Luis Borges, ou Edgar Allan Poe. Julio Cortázar (1914-1984), influenciado por estes dois escritores, construiu narrativas que exigem do leitor redobrada atenção. O escritor argentino dá liberdade e pede responsabilidade, num jogo literário que depende da participação de quem decide caminhar por esta teia construída de forma exemplar. A Cavalo de Ferro continua a publicar a obra do autor de O jogo do mundo – Rayuela. Surge agora um dos últimos livros do escritor, Octaedro, publicado em 1974, mas inédito em Portugal até agora.

Octaedro é composto por oito narrativas breves em pouco mais de cem páginas, e são mais do que suficientes para o autor demonstrar a mestria ao alcance de muito poucos. A utilização de diferentes recursos estilísticos revela a capacidade do escritor argentino para contar uma história de várias formas.

A construção temporal de Liliana a Chamar é arrojada e bem-sucedida. Nesta narrativa, um homem está na antecâmara do grande sono. Nos instantes finais da sua vida, ele conta o que virá a acontecer depois da sua morte. A sua imaginação permite-lhe criar a história – com a utilização de tempos verbais como o futuro imperfeito, o condicional e o infinitivo – ainda antes de ela acontecer. O leitor não tem algo contado em media res, mas antes numa possibilidade por concretizar.



Cada conto cria um espaço próprio (o conto Aí mas onde, como é dos mais dúbios e radicais). O corte com o expectável abre uma porta para uma nova realidade, e é aí que as personagens se aproximam ou se afastam. Em boa verdade, existem várias realidades em cada conto. A tensão existente provém da clivagem entre interpretações das diferentes personagens do que vai acontecendo. Em Lugar chamado Kindberg essa clivagem provoca muita tensão não só entre os pontos de vista das personagens, mas também com o leitor. A interpretação nunca é unívoca.

Cortázar não se limita a replicar na literatura o tempo, falsamente linear. Ele introduz elementos inesperados, fantásticos, que impelem as personagens a reagir de forma diferente. Em Verão, por exemplo, uma menina provoca alterações na rotina de um casal. Mariano, o marido de Zulma, vê os rituais como uma “resposta à morte e ao vazio, fixar as coisas e os tempos, estabelecer ritos e passagens contra a desordem cheia de buracos e manchas”.

Um jogo de reflexos instalou a dúvida e o medo, rompendo com a previsibilidade diária. Um cavalo lá fora? O interior reflectido no vidro? O que representa este cavalo? A cena que sugere uma violação significa que algo os invadiu. Ela, dominada pelo medo; ele, a representação da ameaça. Tudo termina com a chegada da manhã.



Jean Chevalier, em “Diccionario de los simbolos”, afirma que o “cavalo”, como arquétipo presente na memória dos povos, “es portador a la vez de muerte y de vida, ligado al fuego, destructor y triunfador, y al agua, alimentadora y asfixiante.”
Entre as muitas possibilidades de significação, Chevalier afirma também que, ao amanhecer, “el caballo, siguiendo este  proceso, abandona sus oscuridades originales para elevarse hasta los cielos, en plena luz.” O desejo impetuoso desaparece com a chegada da luz.

Cortázar procura a colaboração do leitor. A dubiedade das palavras dos personagens, das suas posturas e da própria história introduzem variáveis que levam a múltiplas interpretações. Em As fases de Severo, talvez mais do que nos outros contos, o escritor argentino elimina as respostas a “como?”, “o quê?” e “porquê?”, mantendo o leitor em suspense e as possibilidades em aberto. O não entendimento daquele ritual e toda a simbologia cria uma ruptura com o expectável. O que estão a fazer?; porquê? Os contos de Cortázar são poliédricos, têm várias faces, tantas ou mais que as de um octaedro. E são, por vezes, analíticos do próprio jogo literário.

Os passos nas pegadas tem essa componente, ao constituir-se como uma história sobre um crítico ultrapassado pelo repórter de moda, crítico de coluna e escribas do momento. A erudição académica de Jorge Fraga foi relegada pela imediatez do consumo de textos com asserções parcamente fundamentadas. O seu conhecimento é de tal profundidade que acontece o fenómeno de interinfluência com Claudio Romero, sobre quem estuda a vida e a obra. Ele vive a vida do poeta tal qual ela não foi vivida, ou seja, os espaços em falta são preenchidos com os seus desejos, projecções e imaginação formando, desta forma, uma “vida paralela” fora do factual. A conjugação de várias interpretações constrói uma visão mais alargada e completa do indivíduo em estudo. Claudio Romero é muito mais do que dados recolhidos nos poucos estudos conhecidos. Ele é composto pelas diferentes vidas vistas por diversas pessoas com quem ele confraternizou. Tudo muda quando Fraga, já depois de ter contribuído para formalizar uma imagem icónica através da publicação de um livro com muito sucesso sobre Romero, percebe que a versão consagrada é enferma de parcialidade e erros grosseiros.

“Atingia agora o estado mais profundo da sua identificação com Claudio Romero, que nada tinha a ver com o sobrenatural. Irmãos na farsa, na mentira esperançosa por uma ascensão fulgurante, irmãos na queda brutal que os fulminava e destruía.”

A escrita sobre a captura do efémero através do jogo literário chega à excelência em Manuscrito encontrado no bolso. Este conto, um dos melhores do livro, tem uma realidade e um tempo próprio. “O jogo”, como lhe chama o narrador, tem regras “belas, estúpidas e tirânicas”. Na carruagem do metro, ele explica:

“ (…) se gostava de uma mulher sentada à minha frente junto à janela, se o seu reflexo na janela cruzava olhares com o meu reflexo na janela, se o meu sorriso no reflexo da janela perturbava ou agradava ou repelia o reflexo da mulher na janela, se Margrit me via sorrir e então Ana baixava a cabeça e começava a examinar detalhadamente o fecho da sua mala vermelha, então havia jogo (…)”

Cada estação de metro multiplica as possibilidades. O espaço e tempo subterrâneos, em que todos coincidem, exponenciam-se pelo número de saídas, ruas e pessoas. (Este espaço viria a ser importante, também, em Pescoço de gatinho preto, conto que encerra o livro.)

O autor de livros como Todos os fogos o fogo ou Gostamos tanto da Glenda não ilumina o “punto ciego”. Ele cria-o.
Octaedro não se deixa compreender numa só leitura. Cortázar é absolutamente brilhante.

José Pacheco Pereira: “Se alguém quiser ser racista, fascista ou qualquer outra variante com certeza de que tem direito a falar”


José Pacheco Pereira esteve no Fólio – Festival Literário Internacional de Óbidos a falar sobre “Liberdade de Expressão e o politicamente correcto”, na passada sexta-feira.

Em “Direito a Ofender”, Mick Hume defende incondicionalmente a liberdade de expressão. O livro publicado pela Tinta-da-China contribui para um debate cada vez mais presente na sociedade contemporânea. O medo de ofender tem imposto um policiamento da palavra. Entrar no politicamente incorrecto pode hipotecar a carreira de um escritor, político, ou jornalista.
No Fólio – Festival Literário Internacional de Óbidos, a Tinta-da- China, parceira nesta edição, programou várias actividades em que o politicamente correcto foi assunto desenvolvido.

Pacheco Pereira tem sido um dos mais severos críticos das redes sociais, além de ter vindo a alertar para o condicionamento do debate público. No jardim da “Casa Tinta-da-China”, o responsável pela “Ephemera” falou sobre a questão política da Catalunha, sobre Trump e principalmente sobre o discurso politicamente correcto. Numa conversa em que Abel Barros Baptista e Bárbara Bulhosa (editora da Tinta-da-China) também participaram, Pacheco Pereira afirmou que “ nos Estados Unidos um princípio básico de liberdade é o de que a opinião pode ser muito ofensiva mas [a pessoa] tem direito. [A Constituição] defende a possibilidade de ela existir“

Foi por causa de obras de arte blasfemas e de panfletos que se criou um direito para a liberdade de expressão. A possibilidade de se defender ideias racistas ou de supremacias brancas faz parte do tecido social norte-americano e da própria tradição. É uma possibilidade que nos defende mesmo que detestemos o que se escreve, de acordo com Pacheco Pereira
A intolerância levou a que hoje já não existam anedotas, segundo Abel Barros Baptista. A ditadura do correcto tem limitado ou eliminado a liberdade de uma pessoa se exprimir de uma forma que até pode ser de mau gosto.
O limite da liberdade de expressão existe, para Pacheco Pereira, quando alguém calunia . Se alguém afirma que determinada pessoa roubou algo, isso pode ser uma calúnia, ou seja, um crime.

“Bem sei que há casos em que a fronteira é difícil de definir, mas a calúnia e o insulto estão tipificados e não têm a ver com a substância da liberdade de expressão nem em bom rigor têm a ver com o politicamente correcto. A tentativa de criminalizar o politicamente incorrecto é absolutamente inaceitável. Aliás, eu acho que na Constituição Portuguesa, a proibição do discurso fascista, do meu ponto de vista, também é inaceitável.”

O acto é diferente e não tem a ver com liberdade de expressão.

“Se alguém quiser ser racista, fascista ou qualquer outra variante com certeza de que tem direito a falar. Tem direito a ser homofóbico, tem direito a ser misógino. O crime é quando se ultrapassou a fronteira da liberdade de expressão para cometer um acto que a lei certifica como crime. Esses actos são punidos na legislação.”

O constante policiamento está pressionar a possibilidade de opiniões minoritárias ocuparem espaço no debate público. A sociedade actual limita cada vez mais a pluralidade de opiniões sobre temas considerados “sensíveis”.
A ascensão de uma censura pelo politicamente correcto no debate público é absolutamente inaceitável para Pacheco Pereira.

“O burburinho que se dá nas redes sociais é uma manifestação da pobreza do nosso debate público. As redes sociais são hoje o sítio onde o pior do debate público estacionou. São contra a sabedoria, são a favor da ignorância. (…) Não é o novo espaço público. É a cedência às pessoas que vivem no facebook ou que vivem o dia todo nas redes sociais. É um recuo civilizacional em muitos aspectos.”

Bárbara Bulhosa perguntou se a rede social, como o facebook, é ou não democrática.

“Não é democrática. É demagógica”, respondeu Pacheco Pereira. “A demagogia e a democracia são muito parecidas. Ambas têm a ver com a opinião comum. Só que há uma pequena diferença: são as mediações. A democracia tem mediações, seja o tempo de mediação, o saber, uma hierarquia, o conhecimento constitucional. O que nós assistimos é uma falência das pessoas que tinham obrigação de não ceder e que cedem, a começar pelos jornalistas.”

Fotografia de: Rui Oliveira / Global Imagens

Texto publicado na Comunidade Cultura e Arte: https://www.comunidadeculturaearte.com/jose-pacheco-pereira-se-alguem-quiser-ser-racista-fascista-ou-qualquer-outra-variante-com-certeza-de-que-tem-direito-a-falar/

Entrevista a Hugo Maia, tradutor de ‘As Mil e Uma Noites’




Entrevista a Hugo Maia, tradutor de ‘As Mil e Uma Noites’

A Livraria de Santiago, outrora uma igreja, recebeu o tradutor de uma das mais importantes obras em árabe.  Hugo Maia esteve no Fólio – Festival Literário Internacional de Óbidos para dar uma conferência sobre “as mil e uma noites – o conto oral como forma de resistência popular”.
A Comunidade Cultura e Arte conversou com o tradutor sobre as dificuldades na tradução de “As Mil e Uma Noites” (E-Primatur).

Qual o motivo para uma nova tradução de “ As Mil e Uma Noites”?

Em Portugal, não é só uma nova tradução. No caso especificamente português, é a primeira tradução directamente do árabe. Todas as traduções têm sido feitas do francês, baseadas na versão do Antoine Galland [1646-1715] e da do Mardrus [1868 –1949]. Há edições que foram feitas cá há várias décadas que combinam as duas, resultando numa outra versão. É preciso ter em conta que a versão do Antoine Galland tem certas particularidades. Por um lado, ele traduziu o mesmo manuscrito que eu traduzi, que é o mais antigo que se conhece das “Mil e Uma Noites”, só que traduziu de uma forma completamente diferente do que está lá no manuscrito. Por exemplo, todas as partes eróticas foram alteradas. No conto das três moças de Bagdade e do carregador, há uma orgia com vinho e comida. Para Galland, é uma espécie de jantar romântico à luz das velas. Antoine Galland inventou uma série de coisas que não enriquecem nada a história e alterou significativamente outras partes.
A versão do Mardrus é muito engraçada porque apareceu, salvo erro, no início do século XX e supostamente é a tradução de um manuscrito da Tunísia, que foi anunciado na altura como o verdadeiro manuscrito de “As Mil e Uma Noites”; verdadeiro e completo, pois tinha de facto mil e uma noites. Mais tarde provou-se ser um manuscrito forjado em Paris por um intelectual sírio e um orientalista e que muitos dos contos que lá figuram, nomeadamente as tais histórias órfãs, são traduções do francês para árabe.

Como é que fixou o texto definitivo nesta edição da E-Primatur, uma vez que há esses contos órfãos?

A ideia sobre esta edição foi pegar no manuscrito mais antigo porque este continua a ser muito ignorado. O do Mardrus baseia-se neste manuscrito, mas já com muitas alterações, partes que foram resumidas, noites exageradamente longas. As histórias com aquele comprimento seriam pouco práticas. No manuscrito mais antigo os contos são mais curtos curtos, correspondem a uma tradição oral de contar histórias em cafés, mercados e outros espaços públicos. A língua não é a língua das “belles-lettres”. Tem muito mais a ver com o espírito com o que “As Mil e Uma Noites” terão aparecido. Não sabemos exactamente quando apareceram, mas talvez tenha sido no século XII, XIII ou XIV.
No século XV é certo que havia um conjunto de histórias contadas pelos contadores de histórias numa língua que os intelectuais da altura desprezavam, pois eram contadas num árabe coloquial.



Nesse episódio do carregador,os vernáculos são constantes. Nos vários textos, há diferentes níveis de língua?

Há, porque os textos mais tardios começam a ter um árabe mais apurado. A primeira edição impressa em árabe, em 1835, já inclui contos que sabemos terem sido traduzidos do francês para árabe. Já não está feito na língua coloquial, está feito na língua das “Belles-Lettre”, que pretende imitar as expressões coloquiais mas que está longe da coloquialidade. Por todas estas razões, decidiu-se que esta era a edição mais curiosa por causa da riqueza da língua. Nós pensamos em “As Mil e Uma Noites” como um livro, mas não era um livro; era uma sebenta usada pelos contadores de histórias. Eles alugavam estas sebentas para se contar histórias. Por sua vez, muitas destas sebentas eram redigidas por outros contadores, ou por alguém ao invés deles quando eram analfabetos.

É um autor colectivo?

Sim, nós podemos ver que há histórias que são muito árabes e outras que têm indícios de terem vindo de outros países, como Índia ou China. Todas as pessoas que estudam a literatura oral sabem que as histórias passam muito facilmente de um lado para o outro.

Afinal, quantos contos e quantas noites é que são?

É uma questão muito interessante. Nós não sabemos quantas noites seriam, realmente. Há estudiosos e especialistas que defendem que o número é meramente simbólico, mas também há quem diga que teriam mil e uma noites.
Os manuscritos mais antigos não tinham mil e uma noites. No entanto, sabemos que estavam incompletos.
A última história aparece cortada a meio. Nesta edição da E-Primatur, para completar a segunda história fui buscar um outro manuscrito posterior da tradição egípcia, só para satisfazer o leitor e ter a conclusão da história.

Isso é mencionado na tradução?

Sim, é mencionado e a escolha é justificada. Só começa a haver versões com mil e uma noites a partir do século XIX. Todas estas versões já têm muito de influência orientalista e europeia. “As Mil e Uma Noites” terão passado de moda talvez no século XVI/XVII. Antoine Galland e todo o fascínio dos orientalistas ressuscitaram o interesse nestas histórias. Houve a necessidade de encontrar a versão original e integral. Não passou pela cabeça de ninguém que, provavelmente, aquilo seria um número meramente simbólico. Por outro lado é preciso ver que quando aparecem as primeiras versões mais longas com quinhentas, seiscentas e mesmo com mil e uma noites- incluindo a primeira edição impressão do mundo árabe em 1835- há nessas versões histórias muito antigas que talvez tenham feito parte de “As Mil e Uma Noites” e se tenham mantido nalgumas tradições orais como histórias de “As Mil e Uma Noites”. Talvez não fosse um conjunto de histórias tão bem estabelecido quanto isso e cada um dos contadores acrescentasse as suas próprias histórias.



Quanto tempo é que demorou a traduzir?

O primeiro volume demorou cerca de dois anos. Não foi tempo só investido na tradução. Foi também um trabalho que obrigou a uma investigação muito profunda. Houve uma série de circunstâncias históricas para apurar como é que o texto evoluiu historicamente, exigiu-me a leitura paralela de muitos livros e obrigou-me também a encontrar um registo da língua portuguesa que, de certa forma, simulasse o registo que aparece no texto em árabe.

Perdeu-se muito na tradução do árabe para o português?

Há sempre coisas que se perdem, infelizmente. Posso dar alguns exemplos: nessa história das três moças, aparece a palavra “grelo”. Em primeiro lugar, a palavra “grelo” é calão para clítoris. Muitas vezes, as pessoas não têm essa noção. Se formos aos dicionários, como o do Houaiss e o do Academia das Ciências, a palavra “grelo” aparece como vernáculo para clítoris. Hoje em dia, as pessoas dão outro sentido. Algumas pensam que são os pêlos púbicos, outras julgam que é a vagina.  Qual é a palavra em árabe, afinal? É uma palavra que significa abelha. Se traduzisse por “abelha”, o sentido perdia-se. Eu só tinha duas grandes opções: a palavra “grelo”, com o risco de pessoas mais novas darem outro significado à palavra, ou “berbigão”, que é mais usada no sul como vernáculo para clítoris.

Quantos volumes terá esta edição?

Vão ser dois volumes.

O segundo terá um posfácio?

Só um pequeno posfácio sobre algumas coisas que não ficaram evidentes no preâmbulo.

Sai este ano?

Sai no próximo ano.

Texto publicado em Comunidade Cultura e Arte:
https://www.comunidadeculturaearte.com/entrevista-a-hugo-maia-tradutor-de-as-mil-e-uma-noites/

   

Fólio 2017: “Realidade ou Ficção. As histórias em que queremos acreditar”



O diálogo entre Laurent Binet e Anabela Mota Ribeiro aconteceu, realmente, na noite de 4ª feira, no Fólio – Festival Literário Internacional de Óbidos. A 16ª mesa programada para o festival foi moderada pela jornalista Isabel Lucas, no Auditório Praça da Criatividade
Não raras vezes, excelentes escritores não são bons intervenientes em mesas de debate. Anabela Mota Ribeiro e Isabel Lucas permitiam ao público alguma segurança sobre a riqueza de conteúdo e a competência em comunicá-lo. E Laurent Binet? O Prémio Goncourt surpreendeu com um discurso desenvolto, ideias claras e interessantes sobre o tema da mesa: “Realidade ou Ficção. As histórias em que queremos acreditar
Uma mesa de debate serve também para criar ou aumentar a vontade de o leitor se aproximar da obra de um autor. A capacidade de comunicação deLaurent Binet e o seu conhecimento sobre literatura fizeram com que “HHhH” (Sextante) e “A Sétima função da linguagem” (Quetzal) se tornassem mais próximos das escolhas dos leitores.
Depois de uma breve introdução da jornalista Isabel LucasAnabela Mota Ribeiro chamou à conversa um outro “convidado”. Machado de Assis, por quem nutre um entusiasmo e conhecimento invulgares, serviu de exemplo para demonstrar o contínuo e profícuo jogo entre realidade e ficção.
A flor amarela” (Quetzal), ensaio escrito pela jornalista sobre “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, serviu de ponto de partida para a conversa.
Anabela Mota Ribeiro contou como vários pontos se ligam entre realidade e a ficção. Brás Cubas nasceu no mesmo dia que a jornalista. A esposa do protagonista morreu no mesmo dia em que ambos nasceram. Sendo Brás Cubas um personagem fictício, não deixa de ser interessante constatar que existiu de facto um Brás Cubas. No Porto existe uma rua, que a jornalista visitou no dia de um seu aniversário, nomeada de Brás Cubas, indivíduo que fundou uma cidade brasileira no século XIX.
Ele ajuda-me a pensar sobre mim”, afirmou Anabela Mota Ribeiro. E deixou ainda algumas perguntas: Qual é o papel da escrita na relação que temos como o impossível? Qual é o poder da escrita?
O autor francês contou ao público que não gosta da palavra “Verdade”. No entanto, não se pode deixar de identificar a diferença entre realidade e ficção.
A noção de realidade passa pelo prisma pessoal da sensibilidade individual, mas isto não significa que não exista um núcleo real.
A ficção pode ser utilizada abusivamente. Não se pode partir do princípio de que tudo é ficção por haver uma interpretação individual. O caso de Auschwitz é um exemplo. Para os judeus, foi horrível e real.
O autor de “HHhH” gosta que a ficção brinque com a realidade sem a tentar substituir. É uma hipótese que é colocada, sem vínculos com a mentira ou a verdade.
A ideia de que a ficção pretende substituir a realidade trouxe vários problemas ao autor quando publicou “A sétima função da linguagem”, livro que põe a hipótese ficcional de o atropelamento mortal de Roland Barthes ter sido intencional e, como tal, um assassínio.
Laurent BinetAnabela Mota Ribeiro e Isabel Lucas, que ainda falou um pouco do seu livro “Viagem ao Sonho Americano” (Companhia das Letras), protagonizaram um excelente momento na 3ª edição do Fólio – Festival Literário Internacional de Óbidos.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A Escritaria de Miguel Sousa Tavares




Penafiel e Miguel Sousa Tavares, um amor correspondido


Penafiel festejou entre 16 e 22 de Outubro o 10º aniversário da Escritaria e a vida e obra de Miguel Sousa Tavares.
Música, Arte de Rua, Teatro, Sessões de Autógrafos, Feira do Livro, Arruada, Entrevista e Conferência juntaram muitos admiradores do autor de “Rio das Flores” e “Equador”
Em Coimbra, bem mais de uma hora depois de o Alfa Pendular sair de Lisboa, a chuva deslizou pela janela. Lá fora, a destruição dos últimos dias. Árvores e vegetação carbonizadas, terra negra com pequenas colunas fumegantes, um cheiro intenso a queimado, e aquela chuva, sarcástica e atrasada, a molhar as cinzas.
Até Aveiro, o cenário foi similar ao de “A Estrada”, de Cormac McCarthy. O fim do mundo para quem vive ali, um horror higienizado pela distância para quem assistiu pela televisão. O país ardeu, animais e pessoas morreram queimadas. De Aveiro ao Porto, a terra foi recuperando a sua vitalidade.
Falar de literatura, ou de qualquer arte, parece irrelevante. Mas debaixo daquelas cinzas, como do silêncio, já algo brota. E se a chuva não apagou, agora está para fazer nascer. A terra regenera-se. Infelizmente, a dor também. Não há água que retire essa sujidade. Mas o homem arranca sempre algo novo do vazio. A literatura tem excepcionais exemplos. Um deles é a Escritaria, em Penafiel. Começou com a homenagem a Urbano Tavares Rodrigues. Seguiram-se José Saramago, Agustina Bessa-Luís, António Lobo Antunes, Mia Couto, Mário de Carvalho, Lídia Jorge, Mário Cláudio e Alice Vieira. Miguel Sousa Tavares é o mais recente homenageado pela cidade literária de Penafiel.

Texto Completo: http://www.comunidadeculturaearte.com/penafiel-e-miguel-sousa-tavares-um-amor-correspondido/





terça-feira, 14 de novembro de 2017

Folio: “Realidade ou Ficção. As histórias em que queremos acreditar”. A mentira como acto criativo



“Realidade ou Ficção. As histórias em que queremos acreditar”. A mentira como acto criativo



O diálogo entre Laurent Binet e Anabela Mota Ribeiro aconteceu, realmente, na noite de 4ª feira, no Fólio – Festival Literário Internacional de Óbidos. A 16ª mesa programada para o festival foi moderada pela jornalista Isabel Lucas, no Auditório Praça da Criatividade.
Não raras vezes, excelentes escritores não são bons intervenientes em mesas de debate. Anabela Mota Ribeiro e Isabel Lucas permitiam ao público alguma segurança sobre a riqueza de conteúdo e a competência em comunicá-lo. E Laurent Binet? O Prémio Goncourt surpreendeu com um discurso desenvolto, ideias claras e interessantes sobre o tema da mesa: “Realidade ou Ficção. As histórias em que queremos acreditar”
Uma mesa de debate serve também para criar ou aumentar a vontade de o leitor se aproximar da obra de um autor. A capacidade de comunicação de Laurent Binet e o seu conhecimento sobre literatura fizeram com que “HHhH” (Sextante) e “A Sétima função da linguagem” (Quetzal) se tornassem mais próximos das escolhas dos leitores.






quarta-feira, 8 de novembro de 2017

‘O Diário de Anne Frank’ em banda desenhada





Uma menina de estrutura frágil, aconselhada a não fazer exercício físico na escola por os ombros e as ancas se deslocarem facilmente, foi obrigada a fugir da Alemanha para Amesterdão. Pouco tempo depois, a Alemanha invadiu a Holanda e e ela foi forçada a esconder-se num anexo durante quase dois anos. A perseguição dos nazis aos judeus, obrigou-a a conviver no mesmo exíguo espaço com Margot Frank (irmã), Otto Frank (pai), Edith Frank (mãe), A família Van Pels- composta por Herman Van Pels (marido), Augusta van Pels (esposa), Peter van Pels (filho)- e Fritz Pfeffer, o dentista. Ela viria a ser capturada e enviada para o campo de concentração em Bergen-Belsen. Resistiu cerca de sete meses, entre Agosto de 1944 e Março de 1945, até o tifo provocar a sua morte. O seu nome era Annelies Marie Frank; o seu diário é conhecido por milhões de leitores.

Texto Completo em: http://www.comunidadeculturaearte.com/o-diario-de-anne-frank-em-banda-desenhada-uma-nova-forma-de-conhecer-anne-frank/




segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Abraão Vicente, Ministro da Cultura de Cabo Verde, em entrevista




Abraão Vicente, Ministro da Cultura de Cabo Verde, em entrevista

Morabeza. Assim se chama a Festa do Livro que acontecerá em Cabo Verde, entre 30 de Outubro e 5 de Novembro. O Palácio da Cultura da cidade da Praia será o principal local onde decorrerá, segundo a organização, o "maior evento literário dos PALOP". Abraão Vicente, Ministro da Cultura de Cabo Verde, esteve em Lisboa e conversou com a Comunidade Cultura e Arte sobre a 1ª edição da Morabeza - Festa do Livro.

Por quê criar um evento literário em Cabo Verde?

Estamos a tentar reavivar o papel da Biblioteca Nacional. Ao entrar como titular da pasta da Cultura, observei que já não havia edições da parte do Estado.
Num país como Cabo Verde, com um mercado muito exíguo, o Estado deve continuar a estar presente e a incentivar o sector das edições, assim como as outras secções da cultura. Queremos que o Morabeza seja o “clique” para reactivar toda a dinâmica da cultura em Cabo Verde, não só para a reedição dos clássicos cabo-verdianos mas também para encontrar novos valores. O meio literário cristaliza-se facilmente. Quando se tem quatro ou cinco nomes consagrados, eles é que fazem a festa toda. Eles é que vão às conferências internacionais, aos festivais…

Há mais de vinte anos que não desponta no panorama cabo-verdiano um novo nome. Os novos estão consolidados: Germano de Almeida, Vera Duarte, Filinto Elísio, José Luiz Tavares. Mesmo o Joaquim Arena, que tem dois romances fantásticos, acaba por não despontar. O Morabeza pretende mostrar que é preciso uma política pública de incentivo à cultura. Acredito que o Estado tem de estar por dentro do sector da cultura. É claro que os privados têm as suas iniciativas, mas essas iniciativas visam o lucro  -  e isto aqui não é uma oposição entre capitalismo e socialismo ou “esquerda” e “direita”. Nós, como Estado, temos a obrigação de criar linhas de políticas públicas que incentivem eventos com qualidade. Essa é a ideia do Morabeza.




sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Pastoralia, de George Saunders







‘Pastoralia’, de George Saunders: somos todos personagens no teatro do absurdo


A naturalidade com que cumprimos rotinas ou ordens sem nexo é, ela própria, irreal. As horas que demoramos para chegar ao trabalho, o almoço que se come em pé, como fazem os cavalos, aquele inútil cartão de crédito que se tem guardado, pois não se paga anuidades, a aceitação do conselho do colaborador que vende um crédito para não gastarmos as poupanças que perfazem o valor pedido, ou o colega que tem imenso trabalho a fingir que trabalha. São muitas as idiossincrasias que encaramos com normalidade.

“Pastoralia” (Antígona) apresenta essa realidade com um “twist” que nos leva a um plausível mundo alternativo.
George Saunders (Texas, 1958) utiliza a estranheza para sublinhar o ridículo das situações, enquanto mostra um sorriso irónico perante o absurdo. Quem lê vê-se reflectido.
O prisma de Saunders, sempre dotado de um acentuado cinismo, incide sobre os marginais de uma sociedade assente no rápido consumo e no entretenimento. São personagens com “impulso de obediência compulsivo”, como afirma o prefaciador e tradutor Rogério Casanova sobre as seis narrativas desta obra.

Texto Completo em: http://www.comunidadeculturaearte.com/pastoralia-de-george-saunders-somos-todos-personagens-no-teatro-do-absurdo/
Videos

Recent

Random