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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

"Zero K", de Don DeLillo







O grau zero da existência

Existe um laboratório algures na antiga União Soviética em que as pessoas escolhem ser mantidas em criogenia. Chama-se "Convergência".
Ross, o ideólogo da "Convergência", convida o seu filho Jeffrey Lockhart a visitar as instalações. Será Jeffrey a narrar as características das instalações e a realidade das pessoas que esperam pela interrupção voluntária das suas vidas. O objectivo dos hóspedes é vencer a doença, a mortalidade. Perante o avassalador desenvolvimento da tecnologia, Jeffrey resiste. A manutenção de um smartphone obsoleto é um sintoma de renitência perante tal fulgor tecnológico.
Don DeLillo, um dos mais importantes escritores norte-americanos da actualidade, subordina a história às ideias que quer desenvolver. "Zero K" (Sextante) aprofunda o sempiterno dilema do homem perante o seu fim. Há ideias a explorar e uma mensagem a transmitir. Demasiado enredo e descrições minuciosas iriam obscurecer essas intenções:
"Eu podia ter feito uma ou duas perguntas. Que cadeira, que quarto, que cidade, que país? Mas dei-me conta de que isto teria sido uma afronta ao método narrativo do homem".
DeLillo interroga-se sobre o fim da vida como parte integrante da própria vida. A impossibilidade de morrer é uma descaracterização do ciclo de existência do ser humano.  As palavras citadas de Santo Agostinho são o mote para o desdobramento das suas interrogações:
" Nunca, na verdade, haverá para o homem pior desgraça na morte de que chegar onde a própria morte não será morte"
A Moral que conhecemos é fragmentada e tudo é posto em causa. A existência do Ser Humano fragmenta-se, reconfigura-se. A Fé em Deus desloca-se para a tecnologia. O primado da lógica e da razão é levado ao limite.
"Tecnologia assente na fé. Eis do que se trata. Outro deus. Não muito diferente, no fim de contas, de alguns deuses anteriores"
O adiamento (ou fim) da morte vem no seguimento da ideia de fenomenologia de Husserl, em que se perspectiva a relação do homem com a sua experiência e com tudo o que é novidade, e com a ideia de desconstrução derridiana do ser e das estruturas sociais que o apoiam. Mas apesar da desconstrução, o Homem caminha para um novo logocentrismo.
As ideias de Derrida, que apareceram primeiro com Husserl, em "Origem da Geometria", estendem-se à Linguagem.
Debaixo de uma calma superfície, existem diversas camadas de sentido, cuja descodificação depende da competência de cada leitor. A simplicidade é enganadora. DeLillo vincula a existência do homem à linguagem e suas diversas declinações.
Noam Chomsky afirma, em "Linguagem e Pensamento", que "Ao estudarmos a linguagem humana aproximamo-nos do que se poderia chamar a "essência humana", as qualidades distintivas da mente que são, tanto quanto sabemos, exclusivas do homem".
Chomsky, que partilha com Derrida o desacordo com o estruturalismo de Saussure, vincula a linguagem à consciência.
Em "Zero K", a nova relação com a morte obriga a uma redefinição da consciência do Ser Humano. A memória das experiências é suspensa para mais tarde ser reactivada. Os órgãos do corpo são retirados e abrigados em cápsulas. O indivíduo entra num estado de suspensão. O tempo e o espaço são redefinidos. As coordenadas são suspensas. É-se algo que a linguagem é incapaz de resolver, um tempo na primeira e na terceira pessoa. A identidade é reformulada devido à nova relação com o espaço e o tempo. E com a Linguagem:
"Será que sou alguém ou serão somente as palavras em si que me levam a pensar que sou alguém", interroga-se Artis Martineau, no único capítulo em que a voz não pertence a Jeffrey.
Para Fromkin e Rodman, nos seus estudos sobre a Linguagem, algumas tribos africanas consideram a criança uma coisa (kuntu); só após o aprender da linguagem esse kuntu se transforma numa pessoa (muntu).
No espaço impessoal da "Convergência", inventa-se "uma língua isolada, a salvo de qualquer filiação com outras línguas" aprendidas por uns, implantada nos que já estão em criopreservação.
"Um sistema que irá proporcionar novos significados, novos níveis de percepção em toda a sua plenitude"
 A realidade e a linguagem formam-se em interdependência. A identidade é construída de acordo com esses alicerces. Freud e depois Lacan fundamentaram as suas teorias de psicanálise nos hábitos de discurso dos pacientes. Seria interessante saber a opinião de Freud ao facto de Jeffrey ter dificuldades em chamar pai a Ross Lockhart, a de ele ter mais admiração pela madrasta do que pelo pai, a do pai recusar dizer o nome da mãe de Jeffrey, ou ainda de o pai não querer olhar para o passado quando, à força da ciência, tenta manter-se existente num futuro mais ou menos longínquo. E de ainda tanto pai como filho não se identificarem com os seus próprios nomes.
Lacan foi mais longe do que Freud. Aos hábitos de discurso analisados por Freud, Lacan acrescentou as formas simbólicas e codificadas.
Nas suas deambulações pelos corredores da "Convergência", Jeffrey tenta descodificar o significado de artesanato, instalações, imagens ou vídeos presentes. As peças de arte vão demonstrando a intersecção entre épocas clássicas e contemporâneas, entre ideias religiosas ocidentais e  orientais. Desde a estrutura das instalações até ao corpo de Artis, tudo é Arte, ou seja, tudo é metáfora de linguagem verbal.
Uma das possíveis interpretações do nome da madrasta, única pessoa a narrar além de Ross, é a de remeter exactamente para Arte.
Artis, de seu nome, é uma obra arte da tecnologia. Artis, genitivo de “Ars,  Artis” pode significar "Arte, Técnica, Saber". Tudo o que a "Convergência" almeja significar.
Será com espanto que Jeffrey perceberá que a essência da comunicação se encontra "nos gritos de pasmo de um rapazito" perante um acontecimento quotidiano.

A nomeação de autores e teorias de diversas áreas tem como objectivo sugerir ao leitor que não interprete "Zero K" como um texto simples. É muito mais do que isso. O usufruto estará dependente da vontade de o leitor aprofundar a leitura, “mergulhar” no texto. Há muito mais do que a falsa calma na superfície. A acrescentar às teorias que serviram de chave de leitura de “Zero K” há ainda esta: a de Recepção. A experiência de Jeffrey foi moldada por todos os acontecimentos que ficaram na sua memória. O passado formou a interpretação de toda a simbologia existente. Cabe ao leitor levar a sua experiência para o livro com o intuito de iluminar os sentidos obscuros de um livro demonstrativo da qualidade do seu autor.
A literatura de DeLillo continua a ser persuasiva, perturbadora e actual.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=855738

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