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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

"A Selva", de Ferreira de Castro




Se um autor for avaliado pela constante actualidade, então Ferreira de Castro (1898-1974) assume especial relevância.
Depois da publicação de “A Experiência”, “ «A Missão» e «O Senhor dos Navegantes» ” e “Emigrantes”, a Cavalo de Ferro publica, agora, “A Selva”, uma das obras mais comercializadas do escritor nascido em Salgueiros, concelho de Oliveira de Azeméis.
Este livro vendeu, quando a literatura portuguesa tinha pouca ou nenhuma expressão, mais de 500 mil exemplares e foi louvado por Camus, Stefan Zweig, Jorge Amado e Nemésio como um dos mais importantes romances sobre a selva amazónica.
Nesta obra, Ferreira de Castro procura pacificar-se com o seu passado ao exorcizar a experiência traumática que teve nos seringais. O biografismo é fundamental na génese de “A Selva”. O autor português esteve muitos anos em território brasileiro, incluindo o espaço geográfico onde se desenvolve a acção do romance. A história de Alberto, o personagem que viaja em condições miseráveis para o Brasil, é a projecção da experiência do escritor que viajou, aos 12 anos, nas mesmas condições, entre esfomeados, num porão de 3ª classe.
Se Ferreira de Castro saiu por questões financeiras e pessoais, Alberto sai por questões políticas. Já no Brasil, e depois de nada acontecer como pretende, Alberto é obrigado a viver e trabalhar no seringal (campo de seringueiras/”árvore-da-borracha” para produção de borracha). Por ser europeu, é visto como uma menos-valia quando comparado com os outros trabalhadores.
Os seringueiros, na procura de vida melhor, contraem dívidas na aquisição e renovação de material indispensável à actividade laboral. O parco pagamento do seu labor pouco mais serve do que para abater essa dívida.
O capital sai do bolso do patrão para voltar a entrar no mesmo bolso. A miséria é um grande negócio.
A lógica esclavagista deixara de ter base na captura de negros (muitos foram exportados para o Brasil depois de raptados em território africano) para sustentar-se na dependência, pelo trabalhador, de um encargo acumulado e indefinido. A violência do capital incide sobre homens entregues a uma dívida estrutural contraída para exercer o próprio trabalho. O que Ferreira de Castro pensa em “A Selva” mantém a actualidade em tempos de neoliberalismo.
Tudo é vendável. Até a própria dignidade.
Dentro dessa realidade hostil, Alberto conhece a sua essência, a dos homens que o acompanham e a da própria selva. Tal qual o seu criador.
Alberto viria a substituir a competição pela cooperação, e o sentimento de superioridade por o da solidariedade. Ao chegar, via-se como ser individual, independente, e superior ao comum dos trabalhadores dos seringais. Quando sai, Alberto sente-se um elemento pertencente a um conjunto, dotado de uma causa social, convicto da justiça do combate contra a desumanização pela pobreza.
A autenticidade do romance deve muito a essa perspectiva credível, autêntica, de um homem que conheceu por dentro a realidade que descreve. O humanismo da sua visão soma-se ao perfeito equilíbrio na descrição da personagem principal deste livro: A selva. As descrições não são demasiado extensas, ou fastidiosas, conseguindo sugerir ao leitor o ambiente infernal em que a acção se contextualiza.

Ferreira de Castro continua com “A Selva” a professar humanismo. Com profundas raízes realistas, o autor marcou – conforme temos vindo a afirmar nas críticas às diversas obras no Diário Digital- o panorama literário da sua época. A universalidade dos seus temas e a qualidade da sua escrita propõem-no como um dos melhores autores em língua portuguesa.
“A Selva”, de igual modo às anteriores obras de Ferreira de Castro publicadas pela Cavalo de Ferro, é um livro com enorme qualidade literária e de permanente actualidade.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=754503

Mário Rufino

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